Recessão compromete avanços econômicos e sociais de uma década

A recessão econômica e o impasse político no Brasil ameaçam os avanços sociais obtidos na última década, como a mobilidade social, o aumento dos salários e a redução da pobreza. Especialistas avaliam que o país não deve voltar a ter fracos índices de desenvolvimento como os de 2005, mas reconhecem que uma regressão se tornou inevitável.

O economista francês Pierre Salama, professor da universidade Paris XIII e especialista em economia do desenvolvimento latino-americano, constata o declínio em curso dos índices brasileiros. “Já estamos voltando atrás. A redistribuição de renda está mais desigual e o número de pobres, devido à crise, certamente já se acentuou. Ainda não temos as estatísticas, porque isso leva tempo, mas essa é uma lógica econômica básica em um quadro recessivo”, indica.

O pesquisador belga Laurent Delcourt conhece bem essa história – a Europa ainda se recupera da grave crise no continente a partir de 2008, que penalizou os mais pobres e a classe média. O sociólogo e historiador do Cetri (Centro Tricontinental, de Louvain-la Neuve), acha que a política econômica da presidente Dilma Rousseff, especialmente no segundo mandato, é a maior responsável pela provável piora na condição social dos brasileiros, nos próximos anos.

“Eu acho que as políticas do governo Dilma, com o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, privilegiaram um modelo neoliberal que aposta nas receitas monetaristas. Acho que esse crescimento negativo do Brasil hoje corresponde, e muito, ao choque recessivo provocado pelo próprio governo, ao adotar essa política de austeridade”, analisa o belga. “Se o governo brasileiro não promover uma virada de 180° em termos de política social e econômica, a crise vai se aprofundar ainda mais. Na verdade, Dilma retomou exatamente o mesmo modelo das políticas de austeridade da União Europeia – medidas que, como sabemos, afundaram o bloco ainda mais na crise.”

Série de indicadores negativos e cortes em áreas sociais

Delcourt observa que, pela primeira vez em 10 anos, a arrecadação fiscal caiu, o saldo comercial está no negativo e um processo de desindustrialização e aumento do desemprego se acelera no país. O pesquisador lamenta que, para tentar suprir o rombo nas contas públicas, a presidente tenha cortado gastos que atingiram benefícios sociais, a saúde e a educação.

Salama adverte que uma proposta de desanexar as aposentadorias dos salários elevaria ainda mais a precariedade das parcelas mais vulneráveis da população, com sequelas imediatas na pobreza. Esses sinais alertam para uma piora na condição de vida dos 25 milhões de brasileiros que acabaram de sair da miséria ou da pobreza, conforme o Banco Mundial, ou dos mais de 35 milhões que tentam se consolidar na nova classe média.

Assim como os colegas europeus, o cientista político do Insper Carlos Alberto de Melo espera uma perda significativa dos avanços sociais registrados na última década : “Para que se continue o processo de inclusão social, não tem jeito : vai ter que ter crescimento econômico”, resume. “Não tem outra forma. Até para poder se manter políticas públicas, como o Bolsa Família, que são todas políticas importantes, você precisa ter crescimento econômico. A inclusão social requer sustentabilidade – e, para isso, é preciso pensar em infraestruturas e mecanismos que aumentem a produtividade da economia brasileira”, ressalta o brasileiro.

Regressão para trabalhos menos qualificados

Melo verifica, por exemplo, que milhares de brasileiros que tinham ascendido profissionalmente estão sendo obrigados a regredir para empregos menos qualificados. “Há dois ou três anos, tínhamos setores da classe média reclamando que não se encontrava mais empregada doméstica, ou que tinha que pagar muito alto por isso – o que era um excelente sinal. Hoje, não : voltamos a ter uma oferta grande de trabalhos desse nível, em situações cada vez mais precárias”, diz o professor do Insper. “É uma regressão social terrível.”

Organismos internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, já preveem uma nova “década perdida” para a economia brasileira, até 2025. “De qualquer forma, já estamos no terceiro ano. Faltam só sete”, ameniza Salama. “Pode parecer malvado falar assim, mas em 2014 o PIB per capita já caiu 0,8%, em 2015 contraiu 4,6% e deve ocorrer mais ou menos a mesma coisa em 2016. O que chamamos de década perdida é uma taxa de crescimento em torno de zero, perto da estagnação. Infelizmente, é bastante provável que isso aconteça.”

Os três pesquisadores ressaltam que uma profunda reforma política e tributária no Brasil seria fundamental para minimizar os estragos da crise nos próximos anos – um objetivo que, diante do bloqueio de um Congresso dominado por conservadores, não deve ocorrer tão cedo.

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